AR: Revista de Derecho Informático ISSN 1681-5726
Edita: Alfa-Redi
No. 049 - Agosto del 2002
Spam: uma abordagem crítica
Abstract: A mensagem não solicitada, enviada por e-mail, atualmente também atende pelo nome de spam. Mas para ser caracterizada assim é necessário também que ela tenho conteúdo comercial. Suas conseqüências são problemáticas, não somente para os usuários de e-mail, mas também para provedores de Internet.
A mensagem não solicitada, enviada por e-mail, atualmente
também atende pelo nome de spam. Mas para ser caracterizada assim é
necessário também que ela tenho conteúdo comercial. Suas conseqüências são
problemáticas, não somente para os usuários de e-mail, mas também para
provedores de Internet.
Deve-se lembrar que, para se ter acesso à Internet, é
necessário pagar por ele. Mesmo que se use um provedor gratuito, ainda há custos
para completar o acesso. Por outro lado, os provedores também pagam por uma
grande estrutura para fornecer o acesso, calculada principalmente pelo volume de
informações que transitam por ele. Assim, o spam atinge, de uma só vez, essas
duas estruturas, pois impõe ao usuário de e-mail um maior custo telefônico para
receber mensagens, e impõe ao provedor um gasto maior devido ao aumento dos
e-mails que circulam pela rede[i].
O fornecimento de e-mail pode ser comparado ao fornecimento de
um número de telefone para contato, e há a expectativa de que não ocorrerá abuso
em sua utilização. Afinal, tanto o e-mail quanto o telefone servem para
facilitar a comunicação. Encontrar sinal de telefone ocupado com
freqüência ou retorno de e-mail por causa de caixa postal cheia é sinal de
problemas na comunicação, e não são agradáveis para os usuários.
O problema é que nem sempre os telefones retornam sinal de
ocupado por o usuário estar ocupado atendendo uma ligação de telemarketing, mas
normalmente o retorno de e-mails por transbordamento de caixa postal se dá pela
ocorrência de spam. O e-mail não solicitado se mostra cada vez mais invasivo e
pouco prático, dificultando a comunicação pelo seu excesso. Já existem relatos
de pessoas com receio de não conferir e-mails durantes as férias com medo do
excesso de spam, que ocupará todo o espaço do servidor destinado ao
armazenamento de mensagens, inviabilizando o recebimento de mensagens
importantes[ii].
Spam x mala direta
Outra questão interessante é a comparação do spam com mala
direta, o que, em princípio, pode gerar a aceitação do spam como instrumento que
faz parte da relação de consumo. Tal noção, embora conte com uma decisão
judicial no Brasil[iii], é totalmente equívoca, e ainda ofensiva aos
profissionais de marketing que elaboram malas diretas.
Há diversas diferenças entre o spam e a mala direta[iv], a começar pela questão do custo, pois quem recebe mala
direta não paga o correio, mas quem recebe spam deve pagar pela conexão. Seria
como se alguém recebesse uma ligação a cobrar fazendo propaganda de um
produto.
Não podemos esquecer que a mala direta é enviada de acordo com
o perfil do consumidor, e elaborada de forma a tornar a marca atraente e atingir
o público-alvo sem grandes distorções. Tal não ocorre com o spam, pois é comum o
recebimento de mensagens totalmente descabidas, como a oferta de produtos
masculinos para o público feminino, ou vice-versa. Para completar o absurdo, as
mensagens não são atraentes, diminuindo o mérito do produto e seu potencial de
consumo, isso se forem escritas na língua do usuário, pois é comum o recebimento
de spam cuja área de incidência do produto anunciado é totalmente diferente do
local onde vive a vítima que o recebeu.
Outra diferença é a obtenção dos endereços para o envio de
spam. A mala direta conta com bancos de dados detalhados, identificando
precisamente seu público consumidor. Já o spam é feito normalmente por meios
escusos, como a obtenção de listas de e-mail em cd-rom, ou o acesso aos e-mails
cadastrados em bancos de dados de empresas, que repassam o e-mail de seus
clientes muitas vezes sem que eles o saibam (ou obriguem os usuários a cedê-los
como forma de acessar o conteúdo do site). As possibilidades são inúmeras, e
envolvem sempre a violação de privacidade do usuário, mas o fato é que os
spammers banalizam o e-mail e tratam o destinatário como apenas mais um
recebedor de spam em uma lista de milhões. Se por um acaso, atingir o
público-alvo, o resultado é considerado excelente, e se tal não ocorrer, os
prejuízos foram mínimos. Ou seja, o respeito ao consumidor, que, em tese, ocorre
na mala direta, não ocorre no spam.
Spammers x
publicitários
Algo que chama a atenção é o fato de os spammers não admitirem
que o são. Sabem-se tão odiados que não assumem suas atividades. Pretendem ter a
exposição de uma estrutura publicitária séria, mas se escondem no anonimato de
um programa de e-mail.
Na verdade, o spammer é um oportunista, deseja ganhar dinheiro
facilmente ou promover rapidamente o seu produto. Não tem conhecimentos de
publicidade, nem de marketing. Compra listas de e-mails, envia mensagens sem
sequer conhecer o perfil dos destinatários, e espera obter algum lucro.
Dificilmente se pode crer que um spammer seja um empresário sério, com um
produto sério, ou tenha aplicado um mínimo de marketing na elaboração de sua
mensagem. Em muitos casos, o e-mail disponibilizado para contato é falso,
destruindo a confiança do destinatário e aumentando as suspeitas de
estelionato.
Por outro lado, há publicidade séria na Internet. E ela é feita
por publicitários, com conhecimento de técnicas de marketing e estatísticas
sobre consumo. Banners e janelas pop-ups são criadas de forma racional, visando
atrair o internauta e incrementar o consumo do produto ofertado, inclusive
facilitando o contato dos clientes através de e-mail (que não costuma ser
falso), telefone ou atendimento on line.
Assim, embora possamos criticar duramente a publicidade na
Internet (posto que na sua origem a Grande Rede era acadêmica, e a proliferação
comercial dos últimos tempos se mostra uma afronta a esses princípios), devemos
nos lembrar de que um spammer é muito pior que um publicitário. Anônimo, falso,
pouco profissional, e ainda força os destinatários de sua mensagem (que deveriam
ser os futuros consumidores de seu produto) a pagar para receber sua “preciosa”
propaganda. Com tantas qualidades negativas, é de se desconfiar da eficácia de
leis que pretendem, como respeito aos consumidores, a identificação completa do
spammer, com endereço real e eletrônico para contato.
Spam e consumo
O respeito ao consumidor, na verdade, é totalmente ignorado
pela estrutura publicitária moderna, sendo absorvido pelo incentivo desenfreado
ao consumismo. Nesses termos, temos a observação de Renata Maldonado da Silva
Lyra:
“O discurso ideológico do consumismo afirma que a principal
finalidade da vida dos indivíduos é comprar. Nas sociedades contemporâneas, este
comportamento foi naturalizado. As pessoas crêem que a vida resume-se ao que
podem consumir. Trata- se de uma ideologia que é incentivada pelas mídias e foi
incorporada pela grande maioria da população urbana. O consumo tornou-se o
centro da vida e atualmente, constitui uma das principais finalidades da
existência.”[v]
Assim, em vez de valorizar o consumidor, a publicidade atual
valoriza a superexposição e o consumismo, utilizando todas as formas de mídia
disponíveis para tanto. E seus idealizadores não percebem que a publicidade
excessiva se torna irritante e inconveniente. É comum, nas grandes cidades, a
poluição visual causada por out-doors e anúncios nos locais mais exóticos, como
a descaracterização de fachadas de prédios residenciais ou cartazes autorizados
no ponto de ônibus.
Tal poluição publicitária também é encontrada na Internet, mas
de formas variadas. Pode ocorrer com banners que conduzem a sites comerciais, ou
serviços gratuitos para o usuário (como e-mail ou listas de discussão) que
incorporam peças publicitárias simples no corpo das mensagens originadas por
esses serviços. Ou pode ocorrer da pior forma possível, através do spam. Se
considerarmos ainda a possibilidade de haver spam em redes de telefonia celular,
como já ocorre no Japão (que já tem lei anti-spam)[vi], essa forma de se pretender a transformação de ser humano
em robô consumista chega a ser ultrajante.
Acrescente-se a isso a questão da privacidade do destinatário.
As formas de publicidade, por mais excessivas que sejam, normalmente ocorrem em
espaços públicos, só permitindo ao destinatário se afastar do local. Já o spam
invade o espaço íntimo do destinatário, interferindo em seu e-mail sem a sua
permissão, sobrecarregando sua caixa postal, lhe causando custos financeiros, e
destruindo o que deveria ser um espaço privado.
Se infelizmente não há ainda como impedir o excesso de
publicidade a que somos brutalmente submetidos diariamente, torna-se necessário
limitar esse excesso, e encontrar soluções para, ao menos, resolver os problemas
causados pelo spam. Assim, analisaremos algumas respostas já existentes ou em
andamento, e que podem ajudar a reerguer o espaço privado destruído pelo
spam.
Soluções jurídicas já
existentes
A solução dos Estados Unidos, seguindo sua tendência
legislativa, foi a criminalização do spam, conforme nos relata Demócrito
Reinaldo Filho, em artigo no qual analisa o projeto norte-americano[vii]. Discordamos da criminalização, pois não é necessário
chamar o Direito Penal quando se pode ter soluções administrativas mais
apropriadas ao caso. Porém, chama a atenção, tanto no projeto norte-americano
quanto no brasileiro[viii], a adoção do sistema opt-out, no qual é necessária a
vontade do usuário para impedir o envio de novas mensagens. Ou seja, ele recebe
os spams e, se não mais desejar recebê-los, envia uma mensagem, cancelando os
futuros envios.
Tal abordagem é completamente oposta à do sistema opt-in, no
qual o usuário manifesta a sua vontade em receber mensagens. Este sistema,
extremamente favorável ao usuário, será o utilizado na União Européia[ix]. Entre outras vantagens, como poupar recursos do usuário
e valorizar a sua privacidade, proporciona ainda a validação do spammer, que
deverá ser sério para conquistar a confiança do destinatário, e autorize o
recebimento dos e-mails. Nas palavras da Coligação Européia Contra o E-mail
Comercial Não Solicitado, que privilegia a transparência do spammer:
“Sob o opt-out, o consumidor que recebe um e-mail não
solicitado não consegue discernir se ele contém uma oferta real de um
comerciante legítimo, ou uma oferta fraudulenta de um spammer. A oferta pode
parecer tão boa que alguns consumidores podem até ser tentados a responder (e a
perder o seu dinheiro). No entanto, a situação é muito mais clara sob o opt-in:
os clientes podem reconhecer facilmente as empresas legítimas, reduzindo as
hipóteses de serem enganados por spammers.”[x]
Outra questão complicada é a do uso de filtros, como previsto
pela lei japonesa. Filtrar e-mails pelo assunto, através de um asterisco ou
qualquer sinal pré-combinado, não nos parece a solução mais eficaz. Primeiro,
porque nada impede que o spammer corra o risco de receber a multa pelo envio
fora das convenções, e envie o spam do mesmo jeito. Segundo, porque nem todos os
usuários de e-mail sabem (ou querem) utilizar filtros e, a julgar pela pouca
eficácia nas medidas anti-proliferação de vírus, dificilmente saberão se
proteger também neste quesito. Terceiro, os custos com spam continuarão os
mesmos para os provedores de acesso, pois a filtragem só ocorrerá quando chegar
ao destinatário.
Não se pode esquecer do aspecto mais importante: o spam, por si
só, é uma invasão de privacidade, pois o e-mail é obtido sem o conhecimento de
seu dono. Permiti-lo, seja por meio do sistema opt-out, seja pela obrigação do
usuário utilizar filtros, é violar a intimidade do usuário, transformando-o em
robô obrigado a atender às pressões consumistas do mercado sem lhe dar qualquer
outra alternativa de se sentir, desde o início do processo, um ser humano.
Desta forma, se ainda não é possível banir de vez a publicidade
e o consumismo de nossas vidas, defendemos como a melhor estrutura legal para se
controlar o spam um rigoroso sistema opt-in, que valoriza a privacidade e
inteligência do destinatário, não sobrecarrega provedores, não acarreta custos
excessivos para provedores e destinatários e valoriza quem investe em uma
propaganda digna e transparente e tem uma reputação a zelar.
[iv]Ver, no Museu do Spam, (que é um site anti-spam
bastante completo, com dicas para identificar e denunciar spammers, artigos e um
acervo interessante) uma lista das diferenças entre spam e mala direta http://museudospam.subversao.com
.
[v] Lyra, Renata Maldonado da Silva. Consumo, comunicação e
cidadania. Disponível na Internet em: http://www.uff.br/mestcii/renata2.htm
.Consulta em 20 jul 2002.